Revelando expõe como política de armas de Bolsonaro fortaleceu facções
A política de armas de Bolsonaro e seus efeitos sobre o fortalecimento do crime organizado são o tema do novo episódio da série investigativa Revelando, lançado neste sábado (24), às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais. Intitulada “Uma Dor Familiar”, a reportagem aborda como a flexibilização do acesso a armas e munições abriu caminhos para que equipamentos adquiridos legalmente terminassem nas mãos de organizações criminosas.
Apresentado pela diretora e roteirista Alessandra Orofino, uma das idealizadoras do Revelando, o episódio também discute os riscos que a circulação de armas representa para mulheres, crianças e famílias brasileiras. A produção integra uma iniciativa do podcast Calma Urgente, em parceria com o Instituto Conhecimento Liberta (ICL), a Mídia Ninja e o 342 Artes.
A escolha de Orofino para conduzir a reportagem tem uma dimensão pessoal. Um tio da diretora foi assassinado aos 22 anos durante um assalto à mão armada. A morte marcou profundamente sua família, especialmente sua avó, e ajuda a explicar a abordagem do episódio, que relaciona a discussão sobre armamentos às consequências da violência para quem perde pessoas próximas.
Assista ao episódio completo:
Política de armas de Bolsonaro abriu brechas exploradas pelo crime organizado
Durante o governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, sucessivas alterações nas normas de controle de armamentos ampliaram o acesso de civis a armas e munições, especialmente por meio dos registros de colecionadores, atiradores desportivos e caçadores (CACs).
Os efeitos dessas mudanças foram documentados em pesquisas sobre o mercado legal e o abastecimento de organizações criminosas. Um levantamento do Instituto Sou da Paz identificou 92 casos de envolvimento de CACs com facções e outros grupos criminosos entre 2016 e outubro de 2026, distribuídos por 21 estados brasileiros.
O estudo, noticiado pela Revista Fórum neste sábado, identificou episódios envolvendo organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e milícias. Os registros mostram situações em que armas obtidas por vias legais foram desviadas e casos de pessoas vinculadas ao crime organizado que conseguiram acessar o sistema de registro.
Outra pesquisa do Sou da Paz, intitulada “Arsenal do Crime”, analisou cerca de 255 mil armas apreendidas no Sudeste entre 2018 e 2023. O estudo constatou que a presença do calibre 9 mm nas apreensões quase triplicou no período e que houve crescimento de 55,8% nas apreensões de fuzis, submetralhadoras e metralhadoras.
Munições brasileiras abastecem o Comando Vermelho
O abastecimento das facções não depende apenas do contrabando internacional. Pesquisa divulgada em outubro de 2026 pelo Instituto Sou da Paz analisou 31.699 cartuchos vinculados ao Comando Vermelho, apreendidos em 29 casos investigados entre 2018 e 2025.
Entre as munições de fabricação original com origem analisada, 40,9% eram brasileiras. Dentro desse grupo, 51,9% apresentavam códigos de rastreabilidade institucional, indicando aquisição original por órgãos das Forças Armadas ou instituições de segurança pública.
Os resultados, disponíveis no levantamento original do Instituto Sou da Paz, mostram que parte do arsenal utilizado pelo crime organizado passou anteriormente por canais legais de aquisição, inclusive por instituições estatais.
A pesquisa ressalta que identificar a fabricação e o comprador original não basta para determinar, automaticamente, quem realizou o desvio. A ausência de registros completos e a dificuldade de acesso a informações de rastreamento comprometem a identificação dos responsáveis.
Flávio Bolsonaro apoiou projeto que enfraquece rastreamento de munições
A discussão voltou ao centro da campanha presidencial depois que o senador Flávio Bolsonaro (PL) foi questionado sobre seu apoio ao projeto de lei 3.723/2019, apresentado durante o governo de seu pai.
O texto aprovado pela Câmara dos Deputados prevê a revogação do artigo 23 do Estatuto do Desarmamento. A mudança eliminaria exigências legais de identificação das munições e de seus compradores, mecanismos utilizados para investigar a origem de cartuchos encontrados em cenas de crimes e rastrear eventuais desvios.
Em março de 2022, durante discussão na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, Flávio defendeu o avanço do projeto sem as concessões negociadas para preservar determinadas regras. Já na campanha presidencial de 2026, minimizou a importância da identificação dos cartuchos e negou ter defendido especificamente sua retirada.
A Revista Fórum também abordou a posição de Flávio Bolsonaro sobre a identificação das munições, tema que ganhou destaque nos confrontos entre o senador e o presidente Lula.
A possibilidade de eliminar esses mecanismos preocupa especialistas porque dificulta reconstruir o caminho percorrido por munições originalmente vendidas de forma regular até sua eventual apreensão em poder de criminosos.
Uma dor familiar: o preço da violência armada
É justamente a consequência humana dessa circulação de armas que orienta o episódio apresentado por Alessandra Orofino. A reportagem desloca a discussão do discurso sobre a ampliação do direito de possuir armamentos para seus efeitos concretos na segurança de famílias e comunidades.
“Uma Dor Familiar” encerra a primeira temporada do Revelando, projeto que reuniu nomes como Fabio Porchat, Juliette, Luana Piovani, Camila Pitanga e Samara Felippo na apresentação de reportagens sobre temas políticos e sociais.
O lançamento ocorre um dia antes do segundo turno presidencial, marcado para domingo (25), em meio à disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro e ao debate sobre os rumos da política de segurança pública brasileira.
Comentários (0)