Planalto avalia que Milei só reconhecerá eleições brasileiras em caso de vitória de Flávio Bolsonaro
Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para este domingo (25), o Palácio do Planalto trabalha com a possibilidade de que o presidente da Argentina, Javier Milei, não reconheça uma eventual reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Integrantes do governo brasileiro avaliam que o argentino, aliado declarado da família Bolsonaro, só deverá reconhecer o resultado das urnas caso o senador Flávio Bolsonaro (PL) seja eleito.
Segundo informações divulgadas neste sábado (24) pelo jornal O Globo, a avaliação nos bastidores do governo é de que a retomada das relações políticas com Buenos Aires dependerá de uma mudança de postura de Milei. Em Brasília, não há expectativa de que o presidente argentino abandone os ataques que marcaram sua atuação durante a campanha eleitoral brasileira.
Milei só reconhecerá eleições brasileiras com vitória de Flávio, avalia Planalto
O cenário considerado pelo governo brasileiro leva em conta o comportamento de Milei ao longo dos últimos meses. O presidente argentino declarou apoio a Flávio Bolsonaro, participou de atos políticos ao lado do senador e fez sucessivos ataques a Lula e às instituições brasileiras.
Na última terça-feira (20), Milei voltou a provocar o governo brasileiro ao insinuar, sem apresentar qualquer prova, que Lula poderia tentar fraudar a eleição. Em publicação na rede social X, afirmou esperar que o último recurso da campanha petista não fosse “roubar a eleição” e chamou o presidente brasileiro de “esquerdista ladrão”.
O Ministério das Relações Exteriores reagiu às declarações e classificou a manifestação como uma “nova e inaceitável tentativa de ingerência externa no processo democrático brasileiro”. O Itamaraty também reafirmou a segurança do sistema eletrônico de votação e destacou que a escolha do próximo presidente cabe exclusivamente aos brasileiros.
O episódio foi detalhado pela Revista Fórum, que mostrou como Milei atacou as eleições brasileiras sem apresentar provas e recebeu uma dura resposta do Itamaraty.
Crise diplomática se agravou após apoio a Flávio Bolsonaro
O desgaste entre Brasília e Buenos Aires ganhou força em julho, quando Milei desembarcou em São Paulo para participar da convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência.
Durante o evento, o argentino chamou Lula de “presidiário” e também dirigiu ataques ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A ofensiva levou o Itamaraty a convocar para consultas o embaixador brasileiro na Argentina, Julio Bitelli.
Como os ataques continuaram, o governo brasileiro decidiu, no início de agosto, rebaixar o nível das relações diplomáticas. Bitelli permaneceu em Brasília, e os contatos entre os dois países passaram a ocorrer no nível de encarregados de negócios, sem a atuação dos embaixadores nas respectivas capitais.
A decisão foi confirmada à época pela Agência Brasil. O governo brasileiro considerou os insultos de Milei incompatíveis com o respeito exigido nas relações entre dois Estados soberanos.
Planalto não pretende tomar iniciativa para reaproximação
Apesar da possibilidade de um novo episódio de tensão após a divulgação do resultado eleitoral, integrantes do Planalto não consideram que uma eventual recusa de Milei em reconhecer a vitória de Lula possa comprometer o funcionamento das instituições brasileiras.
A avaliação é de que os demais governos da região, inclusive os comandados por presidentes de direita, deverão reconhecer o resultado proclamado pela Justiça Eleitoral. Dessa forma, uma eventual contestação argentina tenderia a representar uma posição isolada entre os países vizinhos.
A preocupação com possíveis interferências externas também mobilizou diplomatas estrangeiros em Brasília. Conforme apuração da agência Reuters divulgada na sexta-feira (23), representantes de outros países discutem a possibilidade de reconhecer rapidamente o vencedor anunciado oficialmente, para evitar que manifestações prematuras de líderes estrangeiros coloquem em dúvida o resultado.
Quanto à Argentina, o entendimento no governo brasileiro é de que cabe a Milei decidir se pretende reconstruir os canais políticos com Brasília. Até que isso ocorra, a relação bilateral deverá permanecer condicionada à postura adotada pelo presidente argentino, independentemente de quem vencer a eleição de domingo.
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