O que é Confide? Entenda o aplicativo usado por milicianos
O Confide é um aplicativo de mensagens criptografadas desenvolvido em 2014, em Nova York, por empresários e engenheiros ligados ao setor de tecnologia. Sua proposta central é oferecer comunicação digital sem deixar registros permanentes, combinando criptografia de ponta a ponta, mensagens que se autodestroem após a leitura e bloqueio de capturas de tela.
O funcionamento é diferente dos aplicativos convencionais. Para ler uma mensagem, o usuário precisa deslizar o dedo pela tela, revelando o texto linha por linha. Depois da visualização, a mensagem desaparece automaticamente dos servidores e do dispositivo, sem possibilidade de encaminhamento, impressão ou arquivamento. O aplicativo também impede prints por meio de uma tecnologia patenteada chamada ScreenShield.
A popularidade do Confide entre milicianos e investigados por crimes graves está ligada justamente a essas características. Em julho de 2023, a delação premiada do ex-policial militar Élcio Queiroz revelou que ele e Ronnie Lessa usavam o aplicativo para tratar de assuntos sigilosos relacionados ao assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018, no Rio de Janeiro.
Na delação, Élcio explicou a lógica do uso: “Eu tratava de assuntos triviais pelo WhatsApp normal, mas quando era alguma coisa assim muito reservada, aí eu tratava no Confide”. A Polícia Federal confirmou o uso do aplicativo a partir de vestígios encontrados no celular de Ronnie Lessa, descrevendo três características centrais da plataforma: criptografia, mensagens efêmeras e proteção contra captura de tela (Revista Fórum).
O aplicativo também apareceu em outros contextos ligados ao crime organizado. Em 2016, o Ministério Público Federal apontou que integrantes do esquema do ex-governador Sérgio Cabral utilizavam “sofisticados aplicativos de criptografia, como Wickr, Confide e Wire” para evitar a interceptação de comunicações da organização criminosa.
Mais recentemente, a Polícia Federal identificou que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) usava o Confide para se comunicar com o advogado Willer Tomaz, investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro. O número de Flávio estava salvo como contato favorito de Tomaz na plataforma, segundo relatório da PF (Revista Fórum).
Antes disso, em 2020, após as prisões de Fabrício Queiroz e de militantes bolsonaristas, aliados da família Bolsonaro migraram para aplicativos ultrasseguros como Confide e Signal. O advogado Gustavo Botto Maia, alvo de busca e apreensão na investigação da “rachadinha” no gabinete de Flávio na Alerj, passou a usar o Confide naquele período.
A ferramenta também ganhou notoriedade internacional por ter sido usada por funcionários da Casa Branca durante o primeiro governo de Donald Trump, entre 2017 e 2021, para trocar informações confidenciais e, segundo reportagens da imprensa americana, realizar vazamentos à imprensa.
Para investigadores, o principal atrativo do Confide em atividades criminosas é a impossibilidade de recuperação do conteúdo depois de lido. Como o próprio aplicativo descreve, as mensagens “desaparecem para sempre de forma automática (sem exceção) assim que são lidas”. Na prática, isso significa que, mesmo que a polícia apreenda o celular de um suspeito, dificilmente conseguirá reconstruir o histórico de conversas apagadas.C
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