Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz: entenda, em 7 pontos, a relação entre o senador e o advogado investigado pela PF
A relação entre o advogado Willer Tomaz e o senador Flávio Bolsonaro (PL) entrou no radar da Polícia Federal em investigações que envolvem movimentações bilionárias em plataformas de apostas, empresas offshore, aeronaves e suspeitas de lavagem de dinheiro.
Documentos bancários analisados pelos investigadores indicam que Flávio aparecia como “usuário master” de uma conta vinculada a uma empresa da qual Tomaz era sócio formal. O senador nega participação societária e afirma que o registro decorreu de um erro cadastral.
As apurações também alcançam pessoas ligadas ao escritório de advocacia de Flávio e empresas associadas a Tomaz. Veja sete pontos que ajudam a entender a relação entre os dois e os principais fatos sob investigação.
1. Amizade e viagens em comum
Willer Tomaz é advogado em Brasília e mantém uma relação de amizade com Flávio Bolsonaro. Os dois também têm em comum a utilização de aeronaves ligadas a empresas associadas ao advogado.
A relação pessoal ganhou relevância nas investigações depois que a Polícia Federal identificou registros que vinculam o senador a uma conta bancária de uma empresa offshore da qual Tomaz era o único sócio formal.
Flávio nega ser sócio da empresa. A PF investiga a natureza do vínculo entre o senador, o advogado e as estruturas empresariais examinadas. Entenda mais sobre quem é Willer Tomaz e quais são suas conexões com Flávio Bolsonaro.
2. Flávio Bolsonaro aparecia como “usuário master” de uma offshore
A Alcazar Holdings, sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, tinha Willer Tomaz como único sócio formal. A empresa detinha 33,33% da Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., sociedade proprietária do jatinho Embraer Legacy 650, de matrícula PP-NLR, utilizado por Flávio Bolsonaro em janeiro de 2025.
Documentos bancários da Alcazar Holdings junto ao Santander indicam que Flávio figurava como “usuário master” da conta. A informação consta de relatório da Polícia Federal obtido pelos jornalistas Malu Gaspar, Yago Godoy e Johanns Eller, de O Globo.
O registro levou os investigadores a examinar se o senador tinha participação ou poderes de gestão relacionados à empresa. A condição de usuário master, por si só, não comprova participação societária nem propriedade dos recursos.
Em 22 de maio de 2025, Fayla Menezes, secretária de Tomaz, enviou um e-mail a gestores do Santander solicitando alterações no cadastro de usuários da conta, incluindo a retirada do nome de Flávio Bolsonaro.
O jatinho PP-NLR também tinha entre seus cotistas uma empresa ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, por meio da Prime You. Leia mais sobre a suspeita de que Flávio Bolsonaro seria sócio oculto de jatinho ligado a Vorcaro e sobre a relação entre Flávio Bolsonaro, apostas e paraíso fiscal.
3. O jatinho usado pelo senador e as empresas ligadas a Tomaz
A Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A. era proprietária do Embraer Legacy 650 utilizado por Flávio Bolsonaro. A participação da Alcazar Holdings na sociedade era de 33,33%.
A gestão da offshore também aparece entre os pontos examinados pelos jornalistas que investigaram o caso. Mateo Scudeler, responsável pela administração da Alcazar entre abril de 2023 e junho de 2026, trabalhava no escritório Aragão & Tomaz Advogados Associados, ligado a Willer Tomaz e ao ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão.
Em junho de 2023, Scudeler encaminhou à CPI da Câmara dos Deputados uma petição da Kaizen Gaming, responsável pela Betano, utilizando um endereço institucional do escritório, onde se apresentava como advogado sênior.
Além do PP-NLR, Tomaz é proprietário de outra aeronave que Flávio Bolsonaro já utilizou em deslocamentos anteriores.
Os registros empresariais e bancários são examinados no contexto das investigações sobre a relação entre o senador e o advogado. A utilização de uma aeronave ou a existência de vínculos profissionais, isoladamente, não comprova a prática de irregularidades. Veja também a reportagem da Revista Fórum sobre o jatinho utilizado por Flávio Bolsonaro e as conexões empresariais investigadas.
4. Os R$ 13 bilhões movimentados em apostas esportivas
Em 2025, Willer Tomaz movimentou aproximadamente R$ 13 bilhões em apostas esportivas, dos quais cerca de R$ 10 bilhões passaram pela Blaze, segundo informações obtidas por jornalistas junto a órgãos públicos.
Na plataforma, o advogado teria perdido R$ 163 milhões, depositado mais de R$ 258 milhões e sacado quase R$ 200 milhões ao longo do ano.
Uma nota técnica da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, obtida pelos jornalistas Natália Portinari e Fabio Serapião, do UOL, apontou falhas na análise das operações de Tomaz pela Blaze para fins de prevenção à lavagem de dinheiro. O documento registrou indícios de culpa ou dolo da plataforma e questionou a ausência de análise de movimentações de grande volume.
Segundo a apuração, a Blaze classificou o advogado como cliente de risco médio durante o período, apesar dos valores envolvidos. A plataforma também teria comunicado ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sete operações suspeitas em 2025, sem submeter as movimentações milionárias de Tomaz a uma análise equivalente.
A defesa do advogado afirma que o volume movimentado decorre de reapostas sucessivas, nas quais os mesmos recursos são utilizados repetidamente. A movimentação bruta em uma plataforma não corresponde necessariamente ao patrimônio ou à renda de quem aposta.
O caso das apostas é uma das frentes de investigação envolvendo Tomaz. A relação entre essas operações e Flávio Bolsonaro depende de elementos específicos, que não podem ser presumidos a partir da amizade entre os dois. Leia a reportagem da Revista Fórum sobre a Blaze, Willer Tomaz, Flávio Bolsonaro e as suspeitas de lavagem de dinheiro. Veja também a apuração sobre a rede de loterias e apostas ligada a Flávio Bolsonaro.
5. A sala escondida em um hangar e as suspeitas de lavagem de dinheiro
Em 7 de agosto, a Polícia Federal realizou buscas em hangares utilizados por empresas de aviação associadas a Willer Tomaz, em operação autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Após concluir as buscas iniciais, os investigadores receberam uma denúncia anônima sobre a existência de um compartimento oculto no local. Ao retornarem, identificaram uma alteração estrutural que escondia uma sala com uma porta metálica reforçada.
Segundo informações publicadas pelo Estadão, os policiais encontraram no compartimento uma máquina de contar dinheiro. Outra máquina já havia sido apreendida no escritório do advogado durante a mesma operação.
Não havia dinheiro em espécie na sala no momento da busca. A PF investiga se o espaço era utilizado para guardar numerário e se as aeronaves ligadas a Tomaz tiveram alguma participação no transporte de valores.
O advogado nega irregularidades e afirma que a sala e os equipamentos eram utilizados para prestar serviços a empresas de transporte de valores.
A existência do compartimento e dos equipamentos foi registrada na investigação, mas a finalidade do espaço e sua eventual relação com atividades ilícitas ainda precisam ser demonstradas. Saiba mais na reportagem sobre o bunker com máquina de contar dinheiro encontrado pela PF em local ligado a Willer Tomaz.
6. As conexões com o escritório de Flávio e a investigação sobre fraudes no INSS
Outra frente de apuração envolve as relações entre pessoas ligadas a Willer Tomaz, o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro e investigados por fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS.
Segundo informações reunidas na CPMI do INSS em 2026, Tomaz indicou Letícia Caetano dos Reis para administrar o escritório de advocacia do senador. Ela é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, apontado pela Polícia Federal como sócio de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, em uma empresa offshore nas Ilhas Virgens Britânicas.
Tomaz também atuou como advogado de Alexandre Caetano dos Reis em um processo judicial.
Relatórios de inteligência financeira do Coaf apontaram que Tomaz movimentou R$ 45,5 milhões entre maio e novembro de 2021. No período investigado, também foi identificado um pagamento de R$ 120 mil a Milton Salvador de Almeida Júnior, citado como operador financeiro ligado ao grupo investigado no caso do INSS.
Essas relações foram mencionadas entre os elementos apresentados por parlamentares que defenderam o indiciamento de Flávio Bolsonaro na CPMI. Um pedido de indiciamento, contudo, não equivale a uma condenação nem comprova, por si só, a participação do senador nas fraudes.
O escritório de advocacia de Flávio, aberto em abril de 2021 e instalado em sua residência no Lago Sul, em Brasília, emitiu R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026, segundo os dados citados na apuração. A maioria das notas descrevia os serviços genericamente como “assessoria jurídica”.
A documentação bancária examinada pela PF também relaciona a conta indicada em uma das notas fiscais do escritório à conta na qual o senador aparecia como usuário master. A sobreposição é objeto de apuração em inquérito encaminhado ao STF e distribuído ao ministro Alexandre de Moraes. Confira também a reportagem sobre o inquérito da Polícia Federal envolvendo Flávio Bolsonaro.
7. A viagem a Miami e o novo inquérito no STF
Willer Tomaz deixou o Brasil com destino a Miami, nos Estados Unidos, acompanhado da mulher e dos dois filhos, às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais. A viagem ocorreu em meio às investigações sobre suas movimentações financeiras e estruturas empresariais.
Segundo relatos atribuídos a pessoas próximas ao advogado, havia a expectativa de que ele retornasse depois do segundo turno, dependendo do resultado eleitoral. Essa informação, se confirmada, ajuda a contextualizar a repercussão política da viagem, mas não demonstra, por si só, intenção de fugir das investigações.
Tomaz confirmou a viagem e afirmou que não havia decisão judicial que o impedisse de deixar o país. Não há, nos elementos apresentados, comprovação de que ele tenha descumprido uma ordem judicial.
Em 8 de outubro, a Polícia Federal encaminhou ao STF um novo inquérito para investigar suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz. O caso foi distribuído ao ministro Alexandre de Moraes.
As investigações buscam esclarecer a natureza das relações financeiras e empresariais entre os dois, além de apurar possíveis irregularidades nas operações de Tomaz. Flávio nega ser sócio da Alcazar Holdings e afirma que sua inclusão como usuário master da conta decorreu de um erro cadastral.
Tomaz também nega irregularidades e sustenta que as movimentações financeiras e as operações empresariais têm explicações lícitas.
Até que as apurações sejam concluídas, é necessário distinguir os vínculos documentados, as suspeitas levantadas pelos investigadores e as responsabilidades individuais que eventualmente venham a ser comprovadas. Veja a cobertura da Revista Fórum sobre o inquérito da PF envolvendo Flávio Bolsonaro e a reportagem sobre quem é Willer Tomaz.
Comentários (0)