Entenda o caso da mansão roubada do “pai do bebê” que Lula denunciou no debate da Globo

24/10/2026 - 03:49
0 0
Entenda o caso da mansão roubada do “pai do bebê” que Lula denunciou no debate da Globo
Lula no debate da Globo - Foto: Ricardo Stuckert

A denúncia de que a mansão de R$ 10 milhões foi tomada do jogador Richarlison por um amigo de Flávio Bolsonaro (PL) voltou aos holofotes durante o debate presidencial da TV Globo, nesta sexta-feira (23). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) confrontou o adversário sobre o caso e despertou a curiosidade dos brasileiros, levando a expressão “pai do bebê” a ultrapassar 10 mil buscas no Google, segundo levantamento da Fórum no Google Trends.

O apelido utilizado por Lula se refere a Richarlison, atacante do Tottenham e ex-jogador da seleção brasileira. A expressão surgiu de uma brincadeira familiar que viralizou nas redes sociais. Eduardo Daibert, irmão de Amanda Araújo, companheira do jogador, passou a chamar o sobrinho Richarlison Jr. simplesmente de “bebê”, por não conseguir chamá-lo pelo nome. A brincadeira ganhou força na internet: Eduardo virou o “tio do bebê”, Amanda passou a ser chamada de “ex-grá” (ex-grávida) e Richarlison ficou conhecido como o “pai do bebê”.

O assunto levado por Lula ao debate, porém, é sério. O jogador acusa o advogado Willer Tomaz, amigo de longa data de Flávio Bolsonaro, de ter tomado “na mão grande” uma mansão na Ilha Comprida, em Angra dos Reis (RJ), depois que ele recusou propostas de venda. Flávio nega qualquer participação irregular no episódio.

Em 2020, Richarlison e seus sócios adquiriram os direitos de ocupação da propriedade, que pertence à União, e afirmam ter investido cerca de R$ 10 milhões no imóvel. Flávio conheceu a mansão naquele ano e retornou em 2021 acompanhado de Willer Tomaz. Segundo o jogador, o senador demonstrou interesse na propriedade, mas a negociação não avançou.

Em maio de 2022, uma decisão judicial favorável à empresa M. Locadora resultou na retirada dos ocupantes, incluindo a mulher grávida de um dos sócios de Richarlison. Posteriormente, os direitos de ocupação foram transferidos à WT Administração de Imóveis e Bens, empresa ligada a Tomaz.

Vídeos mostram policiais armados e suspeitas de ação miliciana

Uma investigação exclusiva do Fórum Investiga, núcleo de jornalismo investigativo da Revista Fórum, revelou vídeos com policiais militares fardados e homens armados na mansão depois da reintegração de posse. Em uma das gravações, um homem aparece portando um fuzil.

Em outro registro, um funcionário relata ter sido retirado da propriedade com a esposa e os filhos, sob intimidação de policiais. “Tiraram não, escorraçaram com a gente da ilha. Cheio de ignorância, cheio de polícia armado”, denuncia.

Ao analisar as imagens a pedido da Fórum, o criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, levantou suspeitas sobre a operação. “Eu até ousaria dizer que é coisa de milícia”, afirmou. Uma testemunha ouvida pela Polícia Federal em 2024 também declarou que a segurança da propriedade “não era privada e não parecia ser regular”.

A investigação identificou ainda inconsistências nos documentos utilizados para transferir a posse: uma assinatura considerada suspeita em parecer grafotécnico particular, uma empresa com CNPJ inapto desde 2018 e uma negociação imobiliária omitida inicialmente no processo judicial.

Outro ponto controverso foi a rapidez com que a Secretaria do Patrimônio da União (SPU) autorizou a transferência dos direitos de ocupação, em julho de 2022. O procedimento para emissão da certidão começou e terminou no mesmo dia. Na época, a superintendência do órgão no Rio era comandada por um coronel nomeado durante o governo Jair Bolsonaro e apontado em reportagens como indicação de Flávio.

Lula cobra explicações e Flávio nega envolvimento

Durante o debate, Lula questionou diretamente o adversário: “Como vocês tomaram a ilha do Richarlison?”. O presidente já havia anunciado que pediu à Polícia Federal uma investigação sobre as circunstâncias da perda do imóvel pelo jogador.

Flávio negou participação na negociação e afirmou que a Justiça já havia decidido a disputa. Willer Tomaz também rejeita as acusações, sustenta que adquiriu legalmente os direitos de ocupação e afirma que a reintegração ocorreu por ordem judicial, citando decisões favoráveis, inclusive no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Richarlison, por sua vez, divulgou documentos que, segundo ele, comprovam o investimento e seus direitos sobre o imóvel. Apesar das decisões judiciais desfavoráveis às empresas ligadas ao jogador, ele continua denunciando as circunstâncias em que perdeu a mansão.

Comentários (0)

User