“Ana Clara está morta”: o desabafo da mãe que Flávio Bolsonaro chamou pelo nome da filha
Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara Gomes Machado, menina de 5 anos morta por um tiro de fuzil disparado por um policial militar em Niterói (RJ), em fevereiro de 2021, fez um relato emocionante neste sábado (24) ao recordar o momento em que Flávio Bolsonaro (PL) a chamou pelo nome da filha durante o debate presidencial da TV Globo.
A declaração foi dada durante a Live da Virada, transmissão de 24 horas promovida pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) como parte das ações da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na reta final do segundo turno.
Cristiane estava na plateia do debate realizado na sexta-feira (23), quando Lula questionou Flávio sobre sua atuação na defesa do policial militar Bruno Dias Delaroli, denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro pela morte de Ana Clara.
Ao responder ao presidente, Flávio defendeu o policial e afirmou confiar que ele não havia efetuado o disparo fatal. O candidato também sustentou que o episódio ocorreu durante uma troca de tiros, versão contestada pelas investigações e pelo relato da mãe da criança.
Em determinado momento, ao se dirigir a Cristiane, Flávio a chamou de Ana Clara, nome da menina morta cinco anos antes.
Durante a transmissão de Janones, a mãe contou o que sentiu ao ouvir o nome da filha e revelou o que gostaria de ter dito ao candidato naquele instante.
“Quando ele falou aquilo em frente da câmera, que ele me chamou de Ana Clara, que ele gritou ‘Ana Clara’, a vontade que me deu… É porque eu não tive voz no estúdio, não tem como, mas o que eu tive vontade de falar: ‘Flávio, a Ana Clara não pode te ouvir, a Ana Clara está morta’”, relatou.
Cristiane afirmou que chegou a gritar que a filha estava morta, mas não conseguiu responder diretamente a Flávio Bolsonaro.
“Mas eu gritei que a Ana Clara estava morta. Mas a minha vontade era de falar: ‘A Ana Clara não pode te ouvir, ela está morta. Tem cinco anos que a minha filha morreu, ela não pode mais te ouvir, ela não pode mais ouvir, eu não posso mais ouvir ela’.”
A mãe também falou sobre a dor de viver sem a filha e a luta que trava para impedir que sua história seja esquecida.
“Não existe mais Ana Clara. A Ana Clara ficou na lembrança, ficou o nome que eu estou fazendo de tudo para não apagar, que a Ana Clara não seja esquecida, que não seja esquecida tamanha covardia que foi feita com a minha filha de apenas 5 anos. A minha filha tinha uma vida toda pela frente. Hoje a minha filha teria 11 anos.”
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Flávio Bolsonaro atuou para impedir julgamento pelo Tribunal do Júri
Ana Clara Gomes Machado morreu em 2 de fevereiro de 2021, após ser atingida por um disparo de fuzil enquanto brincava com o irmão mais novo em frente de casa, no bairro do Badu, em Niterói.
O policial militar Bruno Dias Delaroli admitiu ter efetuado disparos com seu fuzil naquele momento, mas nega que um deles tenha atingido a criança. A investigação reuniu depoimentos de testemunhas e provas periciais que fundamentaram a denúncia do Ministério Público, segundo a qual o tiro fatal partiu da arma do agente.
A perícia encontrou no local estojos de munição compatíveis com o fuzil utilizado pelo policial. Testemunhas também negaram a ocorrência de um confronto armado, versão sustentada pela defesa de Delaroli.
O Ministério Público denunciou o militar por homicídio qualificado com dolo eventual, entendimento segundo o qual ele teria assumido o risco de provocar uma morte ao disparar em direção a uma área residencial.
A controvérsia judicial envolve, entre outros pontos, a responsabilidade pelo disparo fatal e a caracterização da conduta como homicídio doloso ou culposo. A acusação sustenta a existência de dolo eventual, enquanto a defesa contesta a responsabilidade do policial pela morte da menina.
Em 2024, Flávio Bolsonaro passou a integrar a equipe de advogados de Delaroli e assinou um recurso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar reverter a decisão que determinou seu julgamento pelo Tribunal do Júri.
Os recursos apresentados pela defesa foram rejeitados pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, pelo STJ e pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que mantiveram a determinação de realização do júri popular.
O julgamento, inicialmente previsto para 21 de outubro de 2026, foi adiado para 5 de maio de 2027. O policial responde ao processo em liberdade.
Durante o debate da Globo, Flávio voltou a defender Delaroli e colocou em dúvida a versão apresentada por Cristiane, que presenciou a morte da filha e nega que tenha ocorrido troca de tiros.
Cinco anos depois da morte de Ana Clara, a mãe continua à espera do julgamento e cobra justiça pela filha.
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