No 1º dia do Fórum de Lisboa, Cezinha se reuniu com advogadas de núcleo investigado por suposta venda de influência

14/09/2026 - 16:14
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No 1º dia do Fórum de Lisboa, Cezinha se reuniu com advogadas de núcleo investigado por suposta venda de influência
Fórum de Lisboa: Cezinha se reuniu com advogadas de núcleo investigado em Lisboa - Cezinha de Madureira, investigado em apuração que passou a incluir os R$ 510 mil apreendidos com sua esposa. Foto: Bruno Spada / Câmara dos Deputados

No mesmo dia em que começava, na capital portuguesa, o XIII Fórum de Lisboa, o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) se encontrou na cidade com as advogadas Valéria Rodrigues Linhares e Mariângela Fialek, ex-assessora do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL). O encontro ocorreu em 2 de julho de 2025 e aparece na decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou medidas da Polícia Federal contra o parlamentar.

A decisão não informa onde, em Lisboa, ocorreu a reunião e tampouco afirma que o encontro tenha acontecido nas dependências ou durante alguma atividade do Fórum de Lisboa. A coincidência registrada documentalmente é de data e cidade: os três se encontraram em Lisboa justamente no primeiro dia do evento.

O XIII Fórum de Lisboa foi realizado entre 2 e 4 de julho de 2025 na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Organizado pelo IDP, pelo Lisbon Public Law Research Centre e pela FGV Justiça, o encontro jurídico-acadêmico reuniu autoridades, acadêmicos, empresários e representantes dos Poderes brasileiros. Na abertura estavam, entre outros, o ministro Gilmar Mendes, do STF, o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o então primeiro vice-presidente do Senado, Eduardo Gomes.

Fórum de Lisboa começou no dia do encontro

Segundo a decisão de Dino, Cezinha e Valéria embarcaram juntos em 30 de junho de 2025 no voo AD8900, no trecho Campinas-Lisboa, sob o mesmo localizador de reserva. Eles desembarcaram na capital portuguesa em 1º de julho.

No dia seguinte, 2 de julho, encontraram-se pessoalmente com Mariângela Fialek. O documento afirma que a advogada enviou sua localização antes da reunião e, posteriormente, registrou nas conversas três mensagens: “Me deve essa”, “Só veio e agarrou na solução kkkkk” e “E eu sigo na prateleira”.

A decisão não esclarece a que Fialek se referia ao mencionar a “solução”, nem aponta o assunto tratado pelos três durante o encontro em Portugal.

O episódio aparece em um trecho no qual a Polícia Federal procura demonstrar o que chama de “comunhão de interesses” entre Cezinha e as duas advogadas. A viagem e o encontro são apresentados pela investigação como elementos adicionais da relação existente entre os três.

PF investiga divisão de funções entre os três

A investigação sustenta que Cezinha, Fialek e Valéria atuavam de forma articulada em processos judiciais. Segundo a estrutura descrita pela PF e reproduzida por Dino, Fialek seria responsável por captar e formalizar causas e elaborar memoriais; Valéria redigiria e revisaria contratos de honorários e cessões de crédito; enquanto Cezinha realizaria o suposto contato pessoal com ministros de tribunais superiores.

Em outros diálogos encontrados no celular de Fialek, Cezinha afirma ter “falado”, “despachado” ou que seria atendido por ministros. Paralelamente, segundo a investigação, eram celebrados contratos de honorários condicionados ao resultado de processos.

A apuração mira uma possível estrutura de “comercialização de influência” junto a ministros do STF, do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). São investigadas suspeitas de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

A Fórum já mostrou que os diálogos reunidos pela PF citam contatos de Cezinha com ministros e memoriais relacionados a processos em tramitação no Supremo.

O próprio documento, entretanto, faz uma ressalva expressa: os magistrados mencionados não são investigados. A PF afirma não ter encontrado indícios de solicitação, aceitação ou recebimento de vantagem indevida por ministros, nem elementos que indiquem decisões judiciais tomadas de maneira irregular.

Segundo a investigação, o foco está na eventual cobrança de valores a pretexto de exercer influência sobre autoridades, crime que pode existir independentemente de o agente público citado ter conhecimento da negociação.

Mensagens foram encontradas no celular de Fialek

Os diálogos que deram origem a essa linha de investigação foram obtidos a partir do telefone celular de Mariângela Fialek, apreendido pela PF em dezembro de 2025 durante a Operação Transparência. O aparelho foi submetido a perícia, e a Polícia Federal afirma que a integridade do material foi atestada por código hash.

Fialek trabalhou como assessora de Arthur Lira e chegou a ocupar a chefia da assessoria especial da Presidência da Câmara quando o deputado alagoano comandava a Casa. Ela já era investigada pela PF no inquérito sobre a destinação de emendas parlamentares.

Na decisão que autorizou as novas buscas, Dino afirmou haver “fundadas razões” para o aprofundamento da investigação. A Polícia Federal sustenta que ainda precisa esclarecer os fluxos financeiros, contratos e a existência de outros processos que poderiam ter sido objeto de intermediação.

Cezinha negou irregularidades após a deflagração da nova fase da operação e afirmou ter confiança na Justiça. A defesa de Valéria informou que buscaria acesso integral aos autos antes de se manifestar sobre as acusações.

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