Maior doador eleitoral, que destinou R$ 2,5 milhões a candidato de Flávio Bolsonaro, foi condenado em 1ª instância por sonegação
Até 24 de agosto, nenhum doador pessoa física havia colocado mais dinheiro nas Eleições 2026 do que Alexandre Grendene Bartelle. O fundador da Grendene já havia desembolsado R$ 3 milhões: R$ 2,5 milhões para Luciano Zucco, candidato do PL ao governo do Rio Grande do Sul, e R$ 500 mil para Ciro Gomes (PSDB), na disputa pelo Ceará.
O maior cheque foi para Zucco. A transferência, feita em 19 de agosto, aparece na prestação de contas registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O empresário que hoje ocupa o topo da lista de financiadores da eleição, porém, já respondeu a um processo criminal por sonegação fiscal. Em dezembro de 2000, Alexandre Grendene foi condenado em primeira instância pela Justiça Federal de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, a três anos e seis meses de prisão.
A condenação atingiu também seu irmão gêmeo, Pedro Grendene Bartelle.
Maior doador eleitoral foi condenado por sonegação
O caso começou com uma investigação sobre a contabilidade da Grendene e da Faster Indústria de Calçados, empresa posteriormente incorporada pelo grupo.
Segundo a acusação aceita pela Justiça Federal em primeira instância, as empresas registraram dívidas que não correspondiam a operações efetivamente realizadas. Esses passivos reduziam o resultado tributável e, consequentemente, o valor dos impostos devidos.
Os fatos remontavam a 1991. Documentos do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) mencionam operações envolvendo o antigo Banco Nacional e recursos relacionados a contas CC5 no exterior.
Na época, a Receita Federal calculava em aproximadamente R$ 7 milhões o valor envolvido na sonegação apontada pela acusação.
A sentença foi publicada em 4 de dezembro de 2000. Alexandre e Pedro receberam a mesma pena: três anos e seis meses de reclusão, além de multa.
Como o regime inicial era aberto, a prisão foi substituída por penas restritivas de direitos, entre elas a prestação de serviços à comunidade.
A Justiça também determinou a perda de bens que haviam sido bloqueados durante o processo. O TRF4 informou à época que o patrimônio alcançado pela medida girava em torno de R$ 7,5 milhões.
Uma decisão da Receita mudou o rumo do caso
O processo ganhou um capítulo incomum porque a esfera administrativa chegou a uma conclusão favorável aos empresários.
O Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda derrubou a cobrança tributária que estava na origem da acusação. Com isso, a defesa passou a sustentar que a ação criminal também deveria cair: se a própria Receita havia concluído que aquele débito não era devido, não haveria imposto sonegado.
Alexandre Grendene contestou publicamente a condenação na época. Disse que o caso teria surgido de um erro contábil relacionado ao antigo Banco Nacional e classificou a sentença como equivocada.
A Justiça, entretanto, não considerou a decisão administrativa suficiente para encerrar o processo criminal.
Em 2001, o TRF4 rejeitou uma tentativa da defesa de Pedro Grendene de suspender a ação. O tribunal destacou que o juiz havia analisado documentos, perícias e depoimentos que não tinham sido considerados no julgamento administrativo.
Apelação teve idas e vindas no TRF4
A discussão chegou a um colegiado ampliado do TRF4 em fevereiro de 2002.
Naquele momento, os desembargadores precisavam decidir se a conclusão favorável aos irmãos na esfera tributária obrigava a Justiça criminal a adotar o mesmo entendimento.
A maioria respondeu que não.
O tribunal decidiu que a Justiça poderia examinar as provas de forma independente, mesmo depois de o Conselho de Contribuintes ter afastado a cobrança fiscal. Com isso, o recurso dos irmãos voltou para a 8ª Turma, responsável por julgar as apelações contra a sentença.
Essa decisão de 2002 às vezes aparece resumida como uma vitória ou derrota definitiva dos Grendene, mas ela não resolveu o mérito da condenação. O que o tribunal decidiu naquele momento foi que a apelação deveria continuar.
Nos registros públicos digitais consultados, não foi localizado o acórdão posterior da 8ª Turma que permita afirmar com segurança se a condenação de Alexandre foi mantida, reformada ou teve outro desfecho.
Por isso, o dado seguro é mais específico: Alexandre Grendene foi condenado em primeira instância por sonegação fiscal em 2000 e recorreu da decisão.
R$ 2,5 milhões para Zucco
Vinte e seis anos depois daquela sentença, Alexandre Grendene aparece como o principal financiador individual de Luciano Zucco nesta eleição.
Zucco deixou a Câmara dos Deputados para disputar o governo gaúcho pelo PL e construiu sua trajetória recente como um dos parlamentares mais próximos do bolsonarismo no Rio Grande do Sul. Em 2024, uma edição da Fórum incluiu o deputado entre os integrantes do primeiro escalão da tropa bolsonarista na Câmara.
Alexandre Grendene continua diretamente ligado à empresa que fundou. A Grendene o identifica atualmente como presidente do Conselho de Administração. Pedro Grendene, condenado com ele em primeira instância no mesmo processo, ocupa a vice-presidência do colegiado.
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