Governo Trump diz que Ramagem é imigrante ilegal e confirma processo de deportação
O governo de Donald Trump classificou o ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) como “imigrante ilegal” e confirmou que o ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) responde a um processo de deportação nos Estados Unidos. Segundo o Departamento de Segurança Interna (DHS), responsável pela polícia de imigração americana, Ramagem violou as leis do país ao permanecer em território americano depois do vencimento de sua autorização de estadia. Condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por participação na trama golpista, o bolsonarista foi preso em abril, mas libertado apenas dois dias depois.
A revelação é de uma investigação publicada nesta quarta-feira (21) pela Agência Pública, assinada pelas jornalistas Brenda Medina e Natalia Viana, em parceria com o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ). A reportagem obteve uma resposta oficial do DHS que contradiz a proteção política atribuída por aliados de Ramagem ao governo Trump.
De acordo com o departamento americano, Ramagem entrou legalmente nos Estados Unidos em 11 de setembro de 2025, com autorização temporária de permanência por seis meses. O prazo terminou em março deste ano, mas o ex-deputado continuou no país sem regularizar sua situação migratória.
O DHS confirmou que Ramagem foi preso pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) em 13 de abril e liberado no dia 15, enquanto aguardava o andamento do processo de deportação.
Ramagem é imigrante ilegal, diz governo Trump
Na resposta encaminhada ao ICIJ, o Departamento de Segurança Interna afirmou que a apresentação de um pedido de asilo político não confere automaticamente situação migratória regular a um estrangeiro.
O posicionamento atinge diretamente a estratégia de Ramagem para permanecer nos Estados Unidos. O ex-chefe da Abin solicitou asilo político após fugir do Brasil, onde é considerado foragido da Justiça.
Segundo o DHS, a existência de um pedido pendente não impede que uma pessoa em situação migratória irregular seja novamente detida ou deportada. O departamento também afirmou que Ramagem terá direito ao devido processo legal.
A confirmação não significa que a deportação já tenha sido determinada. O procedimento migratório continua em andamento, e a eventual retirada do ex-deputado do território americano depende das decisões das autoridades competentes.
Governo Trump soltou Ramagem e expulsou delegado brasileiro
A posição oficial do DHS contrasta com a atuação de outra área do próprio governo Trump. Depois da prisão de Ramagem, o Departamento de Estado dos Estados Unidos acusou um integrante da Polícia Federal brasileira de tentar manipular o sistema de imigração americano.
Em 20 de abril, o governo americano retirou o credenciamento de Marcelo Ivo de Carvalho, delegado da PF que atuava como oficial de ligação em Miami e havia colaborado com as autoridades migratórias para localizar Ramagem.
O episódio provocou uma crise diplomática. O Brasil reagiu retirando a autorização de permanência de um agente americano de imigração que trabalhava em Brasília.
A acusação americana de que o policial brasileiro teria tentado contornar os canais oficiais de extradição esbarra em um dado confirmado pelo Ministério da Justiça: o Brasil havia apresentado um pedido formal de extradição de Ramagem em 30 de dezembro de 2025, mais de três meses antes da prisão pelo ICE.
A Revista Fórum noticiou a expulsão do delegado brasileiro pelo governo Trump em abril, quando a detenção e a rápida libertação do ex-deputado provocaram questionamentos sobre a atuação das autoridades americanas.
Na ocasião, aliados bolsonaristas comemoraram a libertação de Ramagem. Eduardo Bolsonaro agradeceu publicamente a Trump e ao secretário de Estado Marco Rubio. O deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) também atribuiu à atuação de Rubio a rapidez da soltura.
O influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo, cuja empresa de consultoria migratória afirmou auxiliar Ramagem, declarou que o ex-deputado não precisou pagar fiança. A Agência Pública informou não ter encontrado petição judicial relacionada à libertação.
Fuga de Ramagem teve ajuda de família ligada ao garimpo ilegal
Condenado pelo STF a 16 anos, um mês e 15 dias de prisão por sua participação na tentativa de golpe de Estado, Ramagem deixou clandestinamente o Brasil, apesar de estar proibido de sair do país por determinação judicial.
A fuga ocorreu pela fronteira com a Guiana, de onde seguiu para os Estados Unidos. Uma investigação da Agência Pública, também publicada pela Revista Fórum em setembro, revelou que o ex-diretor da Abin contou com ajuda da família de Rodrigo Martins de Mello, conhecido como Rodrigo Cataratas, condenado por envolvimento com garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami.
Mensagens obtidas pelas jornalistas Natalia Viana e Ethel Rudnitzki mostraram que familiares de Cataratas ofereceram hospedagem a Ramagem em um condomínio de luxo na Flórida e tentaram auxiliá-lo a conseguir documentos para estabelecer residência no estado americano.
Ramagem permaneceu durante aproximadamente três meses no apartamento da família. Os registros também indicam que o filho de Cataratas participou das providências para obter uma carteira de motorista americana para o ex-deputado.
Agora, a informação oficial do Departamento de Segurança Interna confirma que, apesar dos esforços para permanecer nos Estados Unidos, Ramagem está em situação migratória irregular e sujeito às medidas previstas na legislação americana.
O processo de deportação tramita separadamente do pedido de extradição apresentado pelo governo brasileiro, que busca trazer o ex-deputado de volta ao país para cumprir a condenação imposta pelo STF.
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