Deputado bolsonarista usou cota parlamentar para pagar empresa de ex-assessor 7 dias após exoneração

27/08/2026 - 12:43
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Deputado bolsonarista usou cota parlamentar para pagar empresa de ex-assessor 7 dias após exoneração
Giovani Cherini com Flávio, Jair e Eduardo Bolsonaro - Giovani Cherini com Flávio, Jair e Eduardo Bolsonaro (Reprodução / Facebook)

Sete dias depois de Bruno Lara Martins deixar o gabinete de Giovani Cherini (PL-RS), uma empresa da qual o ex-assessor já era sócio emitiu uma nota de R$ 6 mil para o deputado. A despesa entrou integralmente na cota parlamentar: os dados oficiais da Câmara registram R$ 6 mil de valor líquido e nenhuma glosa. A regra da própria Casa veda o ressarcimento a empresas de ex-servidores durante os seis meses seguintes ao desligamento.

O caso foi identificado em apuração do Fórum Investiga, núcleo de investigação da Revista Fórum, a partir do cruzamento de registros funcionais, dados empresariais, notas fiscais e a base aberta da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP).

A sequência alcança também Carlos Jordy (PL-RJ): o Instituto Mais Cidades aparece em despesa de sua cota em maio de 2023, quando ainda não haviam se completado seis meses desde a exoneração de Bruno.

Bruno saiu do gabinete em 4 de janeiro; nota veio sete dias depois

Bruno Lara Martins trabalhou como secretário parlamentar no gabinete de Giovani Cherini.

Ele ocupou o nível SP20 entre junho e julho de 2022 e, em seguida, passou ao nível SP22. O Boletim Administrativo da Câmara formalizou sua exoneração com efeitos a partir de 4 de janeiro de 2023.

Bruno, porém, já era sócio do Instituto Mais Cidades. A empresa havia sido constituída em outubro de 2021, mais de um ano antes de sua saída do gabinete.

Em 11 de janeiro de 2023, exatamente sete dias depois da exoneração, o Instituto emitiu a nota fiscal nº 1, no valor de R$ 6 mil, para Giovani Cherini.

O documento descreve serviços de comunicação digital e gerenciamento das redes sociais do parlamentar. No campo de contato do prestador aparece o e-mail pessoal de Bruno Lara Martins.

R$ 6 mil na nota, zero de glosa e R$ 6 mil na cota

A base oficial da Câmara permite acompanhar o que ocorreu com a despesa.

O registro vinculado ao documento 7484781 informa R$ 6 mil no campo “vlrDocumento”, R$ 0 em “vlrGlosa” e R$ 6 mil em “vlrLiquido”.

Segundo a descrição dos dados abertos da Câmara, o valor líquido corresponde ao montante efetivamente debitado da Cota Parlamentar depois das eventuais glosas.

Na prática, a nota de R$ 6 mil foi integralmente absorvida pela CEAP: nenhum centavo foi glosado.

Regra da Câmara prevê seis meses após exoneração

É nesse ponto que a cronologia encontra a regra interna da própria Câmara.

O Ato da Mesa nº 102/2019 determina que não seja utilizada a cota para ressarcir despesas relativas a bem fornecido ou serviço prestado por empresa cujo proprietário ou detentor de qualquer participação seja servidor da Câmara, “em exercício ou até seis meses após sua exoneração ou desligamento”.

A vedação vale independentemente do quadro ou da categoria ocupada pelo servidor.

Bruno deixou formalmente o gabinete em 4 de janeiro de 2023. A nota do Instituto Mais Cidades foi emitida em 11 de janeiro e gerou R$ 6 mil de valor líquido na cota, sem glosa.

Entre a exoneração e a emissão da despesa que foi integralmente debitada da CEAP transcorreram apenas sete dias — muito antes do prazo de seis meses previsto na norma.

Empresa também chegou à cota de Carlos Jordy antes dos seis meses

O Instituto Mais Cidades continuou aparecendo em despesas parlamentares durante o período de seis meses contado da saída de Bruno.

Em 16 de maio de 2023, a empresa aparece em uma despesa da cota parlamentar de Carlos Jordy (PL-RJ) localizada pelo Fórum Investiga.

Naquela data, ainda faltavam 49 dias para completar seis meses desde a exoneração de Bruno.

A Fórum questionou Jordy sobre a aplicação da regra e perguntou se seu gabinete verificou a composição societária do Instituto Mais Cidades antes de apresentar despesas da empresa à cota parlamentar.

Outra empresa chegou à cota apenas 48 horas depois de abrir

O levantamento encontrou outra sequência incomum no mesmo núcleo empresarial, embora sem relação com a regra dos seis meses.

A AB Comunicação Digital foi constituída em 27 de maio de 2024.

Dois dias depois, em 29 de maio, já emitia a primeira nota parlamentar localizada pela reportagem.

O primeiro gabinete identificado foi o de Dr. Flávio (PL-RJ), que naquele momento exercia o mandato durante uma licença de Carlos Jordy.

Foram apenas 48 horas entre a abertura formal do CNPJ e a primeira nota parlamentar localizada.

Esse episódio é diferente da regra aplicada ao Instituto Mais Cidades. Não há impedimento geral para que uma empresa recém-aberta preste serviços a um gabinete. O que a cronologia deixa em aberto é como a AB foi apresentada, selecionada e começou a prestar serviços ao parlamentar em apenas dois dias.

Depois que Jordy retornou ao mandato, a AB Comunicação Digital também passou a aparecer em suas despesas parlamentares.

Bruno abriu outra empresa e voltou a receber da cota de Cherini

A relação comercial com o gabinete de Cherini não terminou no Instituto Mais Cidades.

Em junho de 2025, Bruno Lara abriu a Agência Viralis. Em outubro, cerca de quatro meses depois, a nova empresa já emitia nota para o mesmo deputado.

Os pagamentos identificados pela reportagem à Viralis somam R$ 71.050.

A sequência é incomum: Bruno já integrava o Instituto enquanto trabalhava no gabinete de Cherini; saiu da Câmara; sete dias depois, uma nota da empresa gerou R$ 6 mil de valor líquido na cota do parlamentar; e, dois anos mais tarde, outra empresa aberta por Bruno também passou a receber recursos da CEAP do mesmo deputado.

Cherini foi questionado sobre os R$ 6 mil

A Fórum procurou o gabinete de Giovani Cherini em 5 de agosto de 2026 e apresentou os dados encontrados.

A reportagem perguntou como o gabinete explica o fato de uma nota de R$ 6 mil do Instituto Mais Cidades, emitida apenas sete dias depois da exoneração de Bruno Lara, ter registrado R$ 6 mil de valor líquido na cota e nenhuma glosa, diante da regra de seis meses prevista pelo Ato da Mesa nº 102/2019.

Cherini também foi questionado sobre os R$ 600.150 identificados pela reportagem em pagamentos ao Instituto Mais Cidades e à Agência Viralis, os critérios utilizados na escolha dos fornecedores e a existência de contratos, propostas comerciais, pesquisas de preços e relatórios de execução.

A Fórum perguntou ainda quem atestou a regularidade da despesa de janeiro de 2023 e por que documentos do Instituto utilizavam o e-mail pessoal de Bruno como contato.

Jordy e Dr. Flávio também foram procurados

Carlos Jordy recebeu questionamentos sobre a presença do Instituto Mais Cidades em sua cota ainda dentro dos seis meses posteriores à exoneração de Bruno Lara.

A reportagem perguntou se o gabinete verificou a composição societária da empresa e a regra da Câmara antes de apresentar as despesas para ressarcimento.

Dr. Flávio foi questionado sobre a AB Comunicação Digital e a primeira nota emitida apenas 48 horas depois da abertura do CNPJ.

A Fórum pediu as datas do primeiro contato com a empresa, da apresentação da proposta, da contratação e do início efetivo dos serviços, além dos documentos utilizados para avaliar preço e capacidade técnica do fornecedor.

Até a conclusão desta reportagem, Cherini, Jordy e Dr. Flávio não haviam respondido aos questionamentos encaminhados pela Fórum. O espaço permanece aberto para manifestação.

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